Institucional

16/06/2008

Governo e remanescentes dos Xetás no Paraná discutem proposta pedagógica

O resgate da língua do povo indígena Xetá foi considerado prioridade para uma proposta de atendimento escolar debatida entre representantes da Secretaria Estadual de Educação e descendentes dos índios Xetás no Paraná. O encontro foi realizado neste sábado (14), em Curitiba, e no domingo (15) durante o dia todo.
“É muito triste ouvir os Kaingans e os Guaranis falando sua língua e ver que somente nós, Xetás, não sabemos falar nossa língua. Meu sonho de vida é reunir o povo Xetá e ter nosso canto, nossa própria terra”, declarou Bruno de Oliveira Outeiro, 18 anos, neto do líder Tucanambá, já falecido.
Os Xetás fazem parte da única etnia genuinamente paranaense e a última tribo a ser descoberta no Paraná, na década de 40, no Noroeste do Estado. Eles são originários da região Noroeste, onde hoje fica o município de Umuarama. Eles viviam de coleta e extrativismo, sempre migrando. Em contato com os colonizadores foram praticamente extintos. Atualmente, existem seis remanescentes puros dos índios Xetás e cerca de 92 descendentes dispersos vivendo em cidades do Noroeste do Estado, Curitiba, São Paulo e Santa Catarina.
“Eles foram massacrados por colonizadores, alguns destes, vivos ainda hoje, são fazendeiros. Sabe-se que eram entregues aos indígenas produtos locais com roupas contagiadas com varíola e outras doenças para que fossem exterminados e assim ocupar a terra deles”, contou a coordenadora de educação escolar indígena do Paraná, Cristina Cremoze.
No Paraná, os descendentes dos Xetás vivem nas comunidades indígenas Guarani e Kaingang de Cambuí, São Jerônimo da Serra, Palmital do Meio, Marrecas e Chopinzinho. O maior desafio dos Xetás é recuperar a língua, já que segundo relatos há apenas dois falantes Xetás vivos, uma mulher e um homem, sendo que a mulher não ouve muito bem e o homem tem dificuldades de fala.
Cristina informou que o objetivo do encontro foi reunir o povo Xetá para que eles expusessem suas semelhanças, traços culturais e históricos e sociolingüísticos. Ela esclarece que embora haja somente seis pessoas vivas que são filhos de pai e mãe Xetás, a Secretaria não trabalha o caráter biológico, mas com traços culturais e históricos, já que é a própria comunidade que identifica quem é Xetá.
Muito trabalho pela frente - Além de representantes dos descendentes Xetás, o encontro contou com a participação da representante da educação indígena da Secretaria de Educação, Cultura, Alfabetização e Diversidade do Ministério da Educação, Xanda de Biase Miranda, com o professor da Universidade de Brasília, Aryon Dall’Igna Rodrigues, considerado o maior lingüista tupi-guarani do mundo e sua assistente, Ana Suelly Arruda Câmara Cabral, também lingüista e pesquisadora da UNB.
“Este encontro é para fazermos o atendimento escolar. Estamos vendo como trazer de volta à língua, que é o primeiro pedido, e a história deles. Vamos buscar nos museus, no laboratório de línguas indígenas da UNB onde tem gravações de falas dos Xetás de 40 anos atrás e vamos trabalhar com todos aqueles que querem aprender a língua para fortalecer estes laços culturais”, disse Cristina Cremoze. Ela prevê a implantação de centros de internet para que eles possam se comunicar e trocar experiências.
O professor Rodrigues reconhece que será um longo trabalho para recuperar a língua Xetá, mas sinaliza notícias com otimismo. “Temos da língua Xetá um grande número de gravações feitas ao longo destes anos com indígenas já falecidos e com outro que está vivo, mas que sofre por conta de seqüelas de um derrame. Estamos analisando a língua. Já há uma dissertação de mestrado, recém concluída este ano, de um aluno meu que analisa a formação desta língua”.
Atendimento escolar - Para a representante do MEC, Xanda de Biase Miranda, o processo para implantação do atendimento escolar para o povo Xetá está sendo muito bem conduzido. Ela afirma que se o processo for aprovado pelo MEC, o Governo Federal auxilia com verbas e também na formação, profissionalização e com envio de material padagógico.
A indígena Belamirna, que foi casada com o líder Xetá Tucanambá, herdou a liderança para batalhar pela união e resgate da língua Xetá. Embora ela seja kaingang, foi o próprio Tucanambá que passou a ela a missão de lutar por um espaço para os Xetás. Esta liderança foi reafirmada pelos remanescentes Xetás.
“Os líderes faleceram, mas deixaram boas sementes. Vejo este encontro com muita fé e fico orgulhosa de saber que há pessoas que se preocupam conosco. Desejo que o povo Xetá fique unido e não extraviado um do outro”, afirmou Belarmina. Questionada sobre em que comunidade escolheria viver, no caso de os Xetás conseguirem adquirir uma área própria, ela não exitou em responder: “Ficarei com os Xetás, esta foi a missão que o líder me designou e que seus descendentes desejam”.
Em outubro do ano passado, o Governo do Estado participou das discussões para garantir a demarcação de terras para os últimos remanescentes da tribo Xetá. A Secretaria do Meio Ambiente e Recursos Hídricos, por meio do Instituto de Terras, Cartografias e Geociências (ITCG) e a coordenadoria para Assuntos Indígenas da Secretaria Especial de Assuntos Estratégicos, participaram, em Guarapuava de Encontro sobre a reunificação dos Xetás.
Recomendar esta notícia via e-mail:

Campos com (*) são obrigatórios.