Colégio Alcindo Fanaya foi o único para surdos do País a participar do Enem 08/05/2009 - 17:16
O Colégio Estadual para Surdos Alcindo Fanaya Junior de Curitiba foi o único do Brasil a participar do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), realizado pelo Ministério da Educação. Apesar do resultado, que colocou a escola com a menor nota no Paraná e a segunda menor do País, ele não reflete a realidade do aprendizado do aluno surdo. A diretora Nerci Maria Maggioni Martins classificou como positiva a participação dos alunos na prova do Enem: “Participar do processo de avaliação é uma superação, pois o surdo enfrenta a falta de acessibilidade todos os dias.”
Os 14 alunos do Fanaya que fizeram a prova não tiveram tratamento especial, como a prova em Libras - Língua Brasileira de Sinais e nem de intérprete para dar orientações. A professora de Língua Portuguesa Flávia Valente disse que o que deve ser questionado é o que é a prova do Enem. “Se a prova quer avaliar conhecimento e saberes, então é necessário um sistema diferenciado de avaliação, respeitando o Decreto Federal 5.626/05”, afirmou. Ela disse que a avaliação não leva em conta as desigualdades e diferenças dentro de uma sociedade. “Se a prova fosse sinalizada os alunos teriam outro desempenho”, destacou.
Decreto 5.626/05 – A diretora do Fanaya explicou que processo de correção da prova do Enem é o mesmo tanto para ouvintes como para surdos e os alunos do colégio não contaram com o critério diferenciado de avaliação. “Isso vai contra o Decreto Federal nº 5.626/05, artigo 14 inciso VII, que aborda a necessidade de desenvolver mecanismos alternativos para a avaliação de conhecimentos expressos em Libras, desde que devidamente registrados em vídeo e em outros meios eletrônicos ou de informática”, disse.
Segundo Nerci, diferente do ouvinte os alunos surdos adotam a Libras como primeira língua, sendo que essa modalidade enfoca o visual e os gestos. Como segunda língua, o surdo aprende a estrutura da Língua Portuguesa. Para aproximar os conhecimentos da Libras com o Português, as professoras do colégio utilizam práticas de letramento e fazem uso de vários recursos tecnológicos.
Pesquisas apontam que apenas 3% dos estudantes surdos matriculados concluem o ensino médio no Brasil. Para a diretora do Fanaya, o grande desafio é a permanência do surdo nas escolas. Segundo ela, o surdo precisa de acesso para quebrar as barreiras e chegar na universidade. “O surdo tem capacidade para ir além, só precisa ser compreendido”, diz.
A estudante Thalita Barbosa de Oliveira, 17 anos, do ensino médio, relatou que todos os seus colegas ficaram decepcionados com as notícias veiculadas sobre o colégio. “Tinha gente que olhava o uniforme da nossa escola e perguntava sobre a nota baixa no Enem. Ficamos com muita vergonha, pois sabemos que nossos colegas tiveram dificuldades para interpretar a prova”, contou.
Segundo ela, é difícil para o surdo fazer a prova em Português. “É como uma tradução, primeiro temos que mentalizar tudo o que aprendemos e repassar as informações para a Língua Portuguesa”, explicou. Segundo a estudante, no colégio ocorre a interação efetiva da cultura surda. “Aqui temos contato com a nossa cultura, consigo interagir com meus pares por meio da língua de sinais”. De acordo com ela, essa interação, muitas vezes, não acontece em outros espaços.
Outra aluna do ensino médio, Viviane Ribeiro, destacou a qualidade do ensino no Fanaya. “Minha família conheceu a escola, e depois que comecei a estudar aqui minha vida melhorou, até minha mãe começou a fazer curso de Libras”, contou. No muro do colégio, a aluna Ana Paula Miranda, participante do Enem 2008, deixou sua mensagem: “Surdez não é deficiência, é diferença. O surdo é igual ao ouvinte, tem jeito, amor, cultura, emoções, tem língua visual e gestual. O surdo marca sua identidade na liberdade dos seus sinais”.
A professora Zinair Viana diz que os professores estão sempre na busca da complementação curricular do estudante. “Adaptamos o currículo para a realidade do surdo. Como esse aluno se apropria da visualidade, do gestual utilizamos o computador e a TV Multimídia como aliados no aprendizado”, ressaltou. “No contraturno, se os alunos optarem, são desenvolvidas atividades extracurriculares, como práticas esportivas, reforços de disciplinas e psicomotricidade”.
REFERÊNCIA - O Colégio Alcindo Fanaya Junior é referência na área da surdez e atende alunos da educação infantil, fundamental e médio. São 250 alunos que recebem formação regular em um processo inclusivo de atendimento. Os professores têm, além da sua formação em licenciaturas específicas, pós-graduação e proficiência em Libras. Em 2007, o colégio recebeu 12 diretores de escolas inclusivas da Inglaterra para troca de experiências. O renomado professor Jean Foucambert, do Instituto Nacional de Pesquisa Pedagógica da França, criador da Associação Francesa pela Leitura, veio conhecer a metodologia de leitura utilizada na escola em 2008.
O colégio atende alunos da capital, da região metropolitana, alunos vindos de outros estados e esporadicamente de outros países como Itália, Japão, Venezuela e Estados Unidos. Alguns estudantes apresentam além da surdez, outras necessidades educacionais especiais, tais como: deficiência visual, surdo-cegueira, deficiência física neuro-motora, deficiência intelectual, condutas típicas de síndromes e quadros neurológicos psiquiátricos e psicológicos.
Libras é a língua utilizada pela comunidade surda no Brasil. Diz-se língua e não linguagem porque possui uma estrutura lingüística própria, assim como qualquer outra língua falada no mundo. Cada país tem sua própria língua de sinais. A do Brasil é diferente da de Portugal. Por isso, é considerado bilíngüe quem sabe Português e Libras. É possível estudar a Libras em todos os seus níveis estruturais.
No passado, a tendência nas escolas, tanto as regulares como as voltadas para os surdos, era “oralizar” os alunos. Isto é, fazer com que eles aprendessem a falar e a ler os lábios. O conceito começou a mudar no início dos anos 90, quando se chegou à conclusão de que nem todos tinham aptidão para a “oralidade”. A língua dos sinais passou a ser permitida.
A Secretaria de Estado da Educação do Paraná (Seed) fez a contratação de tradutores/intérpretes de Libras para atender os surdos e realizou um concurso para 193 intérpretes. Segundo Angelina Matiskei, chefe do Departamento de Educação Especial e Inclusão Educacional da Seed, o número só não é maior porque a formação na área requer tempo e a oferta de profissionais é pequena. “Temos solicitado à Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos que coopere conosco encaminhando profissionais proficientes na Libras”, conta.
Os 14 alunos do Fanaya que fizeram a prova não tiveram tratamento especial, como a prova em Libras - Língua Brasileira de Sinais e nem de intérprete para dar orientações. A professora de Língua Portuguesa Flávia Valente disse que o que deve ser questionado é o que é a prova do Enem. “Se a prova quer avaliar conhecimento e saberes, então é necessário um sistema diferenciado de avaliação, respeitando o Decreto Federal 5.626/05”, afirmou. Ela disse que a avaliação não leva em conta as desigualdades e diferenças dentro de uma sociedade. “Se a prova fosse sinalizada os alunos teriam outro desempenho”, destacou.
Decreto 5.626/05 – A diretora do Fanaya explicou que processo de correção da prova do Enem é o mesmo tanto para ouvintes como para surdos e os alunos do colégio não contaram com o critério diferenciado de avaliação. “Isso vai contra o Decreto Federal nº 5.626/05, artigo 14 inciso VII, que aborda a necessidade de desenvolver mecanismos alternativos para a avaliação de conhecimentos expressos em Libras, desde que devidamente registrados em vídeo e em outros meios eletrônicos ou de informática”, disse.
Segundo Nerci, diferente do ouvinte os alunos surdos adotam a Libras como primeira língua, sendo que essa modalidade enfoca o visual e os gestos. Como segunda língua, o surdo aprende a estrutura da Língua Portuguesa. Para aproximar os conhecimentos da Libras com o Português, as professoras do colégio utilizam práticas de letramento e fazem uso de vários recursos tecnológicos.
Pesquisas apontam que apenas 3% dos estudantes surdos matriculados concluem o ensino médio no Brasil. Para a diretora do Fanaya, o grande desafio é a permanência do surdo nas escolas. Segundo ela, o surdo precisa de acesso para quebrar as barreiras e chegar na universidade. “O surdo tem capacidade para ir além, só precisa ser compreendido”, diz.
A estudante Thalita Barbosa de Oliveira, 17 anos, do ensino médio, relatou que todos os seus colegas ficaram decepcionados com as notícias veiculadas sobre o colégio. “Tinha gente que olhava o uniforme da nossa escola e perguntava sobre a nota baixa no Enem. Ficamos com muita vergonha, pois sabemos que nossos colegas tiveram dificuldades para interpretar a prova”, contou.
Segundo ela, é difícil para o surdo fazer a prova em Português. “É como uma tradução, primeiro temos que mentalizar tudo o que aprendemos e repassar as informações para a Língua Portuguesa”, explicou. Segundo a estudante, no colégio ocorre a interação efetiva da cultura surda. “Aqui temos contato com a nossa cultura, consigo interagir com meus pares por meio da língua de sinais”. De acordo com ela, essa interação, muitas vezes, não acontece em outros espaços.
Outra aluna do ensino médio, Viviane Ribeiro, destacou a qualidade do ensino no Fanaya. “Minha família conheceu a escola, e depois que comecei a estudar aqui minha vida melhorou, até minha mãe começou a fazer curso de Libras”, contou. No muro do colégio, a aluna Ana Paula Miranda, participante do Enem 2008, deixou sua mensagem: “Surdez não é deficiência, é diferença. O surdo é igual ao ouvinte, tem jeito, amor, cultura, emoções, tem língua visual e gestual. O surdo marca sua identidade na liberdade dos seus sinais”.
A professora Zinair Viana diz que os professores estão sempre na busca da complementação curricular do estudante. “Adaptamos o currículo para a realidade do surdo. Como esse aluno se apropria da visualidade, do gestual utilizamos o computador e a TV Multimídia como aliados no aprendizado”, ressaltou. “No contraturno, se os alunos optarem, são desenvolvidas atividades extracurriculares, como práticas esportivas, reforços de disciplinas e psicomotricidade”.
REFERÊNCIA - O Colégio Alcindo Fanaya Junior é referência na área da surdez e atende alunos da educação infantil, fundamental e médio. São 250 alunos que recebem formação regular em um processo inclusivo de atendimento. Os professores têm, além da sua formação em licenciaturas específicas, pós-graduação e proficiência em Libras. Em 2007, o colégio recebeu 12 diretores de escolas inclusivas da Inglaterra para troca de experiências. O renomado professor Jean Foucambert, do Instituto Nacional de Pesquisa Pedagógica da França, criador da Associação Francesa pela Leitura, veio conhecer a metodologia de leitura utilizada na escola em 2008.
O colégio atende alunos da capital, da região metropolitana, alunos vindos de outros estados e esporadicamente de outros países como Itália, Japão, Venezuela e Estados Unidos. Alguns estudantes apresentam além da surdez, outras necessidades educacionais especiais, tais como: deficiência visual, surdo-cegueira, deficiência física neuro-motora, deficiência intelectual, condutas típicas de síndromes e quadros neurológicos psiquiátricos e psicológicos.
Libras é a língua utilizada pela comunidade surda no Brasil. Diz-se língua e não linguagem porque possui uma estrutura lingüística própria, assim como qualquer outra língua falada no mundo. Cada país tem sua própria língua de sinais. A do Brasil é diferente da de Portugal. Por isso, é considerado bilíngüe quem sabe Português e Libras. É possível estudar a Libras em todos os seus níveis estruturais.
No passado, a tendência nas escolas, tanto as regulares como as voltadas para os surdos, era “oralizar” os alunos. Isto é, fazer com que eles aprendessem a falar e a ler os lábios. O conceito começou a mudar no início dos anos 90, quando se chegou à conclusão de que nem todos tinham aptidão para a “oralidade”. A língua dos sinais passou a ser permitida.
A Secretaria de Estado da Educação do Paraná (Seed) fez a contratação de tradutores/intérpretes de Libras para atender os surdos e realizou um concurso para 193 intérpretes. Segundo Angelina Matiskei, chefe do Departamento de Educação Especial e Inclusão Educacional da Seed, o número só não é maior porque a formação na área requer tempo e a oferta de profissionais é pequena. “Temos solicitado à Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos que coopere conosco encaminhando profissionais proficientes na Libras”, conta.


