Leia os textos das paranaenses premiadas na Olimpíada de Língua Portuguesa 05/12/2008 - 21:34
As alunas Sheron Ribeiro e Mariane Cheli de Oliveira foram as duas paranaenses premiadas no concurso. Leia aqui seus textos. O tema da Olimpíada foi “O lugar onde vivo”.
Antes que tudo se apague...
Sheron Ribeiro
Colégio Estadual Sagrada Família, Campo Largo (PR)
Lembro-me bem dos meus tempos de criança, da minha cidade, das emoções vividas, da minha cidade querida... Vejo o filme de minha vida passando diante de meus olhos, as risadas, as lágrimas, os sorrisos, os olhares brilhantes, os amores, os encantos... Ainda me lembro de quando olhava para o céu azul... Campo Largo. Ah, Campo Largo! Lugarejo calmo e pacato, mas que marcará sempre, com sua simpatia e beleza, o coração dos campo-larguenses!
Tempos bons, em que alegria era poder brincar, que encanto era olhar os pássaros, que divertimento era contar estrelas... Ai como era bom, com nossos pequenos olhinhos, fixados e ansiosos, aguardando que nossos irmãos maiores terminassem nossos brinquedos novos!
Feitos de retalhos, meias velhas, sabugo de milho... Mas não importava, éramos gente simples, apenas com Deus nos acompanhando, abrindo nossos caminhos, amparando-nos quando necessário.
E é por isso que eu e toda a minha família íamos todos os domingos à missa. Sempre muito religiosos, meus pais nos aprontavam com nossas melhores roupas, com a cheirosa água-de-colônia, lacinhos no cabelo, gravatinha nos meninos e com sapatos engraxados cuidadosamente por meu irmão mais novo.
Bom mesmo era namorar! Como era gostoso, aquele friozinho que subia pelo corpo todo quando pegávamos um na mão do outro! A pior parte era quando chegava o momento de encarar o "sogrão". As pernas tremiam, as mãos suavam, o rosto vermelho de vergonha... Mas estava ali! O pai nos colocava mil restrições, e a que mais nos incomodava era o irmão dela, que nos vigiava todo o tempo. Ele nos colocava preços: um beijinho - 3 balas; pegar na mão - 4 balicas; abraçar - 5 chicletes; olhares prolongados - 1 carrinho de coleção, mas não passava disso! Se fizéssemos mais que isso, o preço era outro: um sermão enorme e uma ex-namorada.
Ainda bem que isso não aconteceu! Nós íamos ao Cine Jóia, depois ao coreto, onde tocavam as bandinhas, comprávamos um jornal, na Banca do Zeca, e sentávamos no banco da praça da Igreja. Era assim, pouco contato, mas muito... muito amor!
Trabalhei muito, dia após dia, com o suor escorrendo pelo rosto para juntar um bom dinheiro, comprar minha casa e me casar com minha querida Luíza. Finalmente consegui! A alegria estampada em meu rosto mostrava a todos o amor que por ela sentia.
Casei-me, dia especial, totalmente sem palavras, momento sem explicação! Que nervosismo ficar em frente ao altar esperando minha 'anja protetora' chegar! Então - depois de minutos de atraso - entra minha noiva, minha esposa, minha mulher! Linda, véu sobre o rosto, cauda longa, vestido bordado à mão... imagem inesquecível.
Casal perfeito, nos amamos muito. Assim vieram os frutos... lindos frutos! Dez filhos maravilhosos, prestativos. Eu, em meu tempo de estudo, ou seja, no tempo certo para se estudar, não tive condições... não tinha mesmo! Por isso dei tudo o que não tive aos meus filhos.
Hoje tenho uma grande, não, não... ENORME família! Orgulho-me de ser descendente de italianos, mas me orgulho mais ainda de ser campo-larquense... povo bom e honesto! Agora, em meu lar, tenho rapazes formados, direitos, legítimos campo-larquenses!
Ah, antes que tudo se apague, agradeço ao Nosso Senhor, que me permitiu ter pessoas tão lindas em minha vida, ter vivido instantes inesquecíveis e claro... registrar aqui minha caminhada, antes que o futuro os apague.
Aí vai uma dica: antes que o belo se apague, viva a vida como ela é!
Abraços... de um alguém.
Cavaleiros da cana versus mecanização
Mariane Cheli de Oliveira
Colégio Estadual Dr. Duílio Beltrão, Tamboara (PR)
O lugar onde vivo é uma típica cidadezinha do interior do Paraná, com uma população de apenas 4.275 habitantes. O formato do município de Tamboara é no mínimo curioso, quase um quadrado perfeito emoldurando uma cidade em miniatura com virtudes e problemas característicos de uma cidade pequena.
Em nosso município e região a cana-de-açúcar é a principal fonte de trabalho; é cortando cana que muitos trabalhadores sustentam suas famílias. Devido ao serviço árduo e estafante, podemos chamá-los de cavaleiros da cana, pois levantam de madrugada, vestem suas armaduras e saem para a luta com a determinação de guerreiros.
Mas ultimamente algo vem lhes tirando o sono: a provável mecanização da colheita de cana. Penso que isso não deveria acontecer, pois é indiscutível que esse tipo de colheita irá ocasionar o desemprego de muitos trabalhadores braçais.
Com a implantação da mecanização, as usinas teriam mais lucros, pois, segundo dados da Alcopar, enquanto um trabalhador colhe em média seis toneladas de cana por dia, uma máquina pode colher seiscentas.
Segundo dados da União dos Produtores de Bioenergia (UDOP), o Paraná ocupa o segundo lugar na produção de cana-de-açúcar. Isso é algo que podemos perceber claramente observando o aumento do plantio de cana em nossa área rural, que, se por um lado, gera muitos empregos, por outro, causa problemas ambientais.
Nesse sentido, os que são contrários ao processo de mecanização da colheita de cana-de-açúcar argumentam que ele tiraria o emprego de muita gente, que em sua maioria possui baixa escolaridade e não conseguiria outro emprego, principalmente com carteira assinada, como o proporcionado pelo corte de cana.
Os que argumentam a favor citam as questões ambientais, pois com o trabalho das máquinas não haveria a necessidade das queimadas dos canaviais que poluem o ar, matam animais e prejudicam a saúde humana, principalmente a dos próprios cortadores de cana que entram em contato direto com a fuligem.
Na minha opinião, os impactos negativos causados pelas queimadas são inegáveis, mas não deveriam servir de justificativa para a substituição de trabalhadores por máquinas. Vale lembrar que o corte da cana sem a prática da queimada não é impossível, pois isso já ocorre quando há o corte de cana para a produção de mudas.
Segundo pesquisa feita pelo engenheiro ambiental Eleutério Languloski, não há motivos que justifiquem técnica, ecológica ou socialmente as queimadas nos canaviais, a não ser para maior rendimento da colheita.
Esse, com certeza, é um impasse difícil de ser resolvido, mas acho que a solução está com os donos de usinas, que poderiam abrir mão de suas margens de lucro, acabando com a prática da queima de cana, pagando uma remuneração mais justa aos seus trabalhadores que, produziriam menos do que na situação atual, e fornecendo-lhes equipamentos de trabalho adequados para sua proteção, visto que na colheita da cana os trabalhadores estariam mais sujeitos à picada de bichos peçonhentos e cortes causados pelas folhas.
Assim, o verde de nossos canaviais continuaria sendo a cor da esperança de nossos cavaleiros, que vêem no plantio da cana e na força de seu trabalho a garantia de sustento de suas famílias e o progresso de nossa cidade.
Antes que tudo se apague...
Sheron Ribeiro
Colégio Estadual Sagrada Família, Campo Largo (PR)
Lembro-me bem dos meus tempos de criança, da minha cidade, das emoções vividas, da minha cidade querida... Vejo o filme de minha vida passando diante de meus olhos, as risadas, as lágrimas, os sorrisos, os olhares brilhantes, os amores, os encantos... Ainda me lembro de quando olhava para o céu azul... Campo Largo. Ah, Campo Largo! Lugarejo calmo e pacato, mas que marcará sempre, com sua simpatia e beleza, o coração dos campo-larguenses!
Tempos bons, em que alegria era poder brincar, que encanto era olhar os pássaros, que divertimento era contar estrelas... Ai como era bom, com nossos pequenos olhinhos, fixados e ansiosos, aguardando que nossos irmãos maiores terminassem nossos brinquedos novos!
Feitos de retalhos, meias velhas, sabugo de milho... Mas não importava, éramos gente simples, apenas com Deus nos acompanhando, abrindo nossos caminhos, amparando-nos quando necessário.
E é por isso que eu e toda a minha família íamos todos os domingos à missa. Sempre muito religiosos, meus pais nos aprontavam com nossas melhores roupas, com a cheirosa água-de-colônia, lacinhos no cabelo, gravatinha nos meninos e com sapatos engraxados cuidadosamente por meu irmão mais novo.
Bom mesmo era namorar! Como era gostoso, aquele friozinho que subia pelo corpo todo quando pegávamos um na mão do outro! A pior parte era quando chegava o momento de encarar o "sogrão". As pernas tremiam, as mãos suavam, o rosto vermelho de vergonha... Mas estava ali! O pai nos colocava mil restrições, e a que mais nos incomodava era o irmão dela, que nos vigiava todo o tempo. Ele nos colocava preços: um beijinho - 3 balas; pegar na mão - 4 balicas; abraçar - 5 chicletes; olhares prolongados - 1 carrinho de coleção, mas não passava disso! Se fizéssemos mais que isso, o preço era outro: um sermão enorme e uma ex-namorada.
Ainda bem que isso não aconteceu! Nós íamos ao Cine Jóia, depois ao coreto, onde tocavam as bandinhas, comprávamos um jornal, na Banca do Zeca, e sentávamos no banco da praça da Igreja. Era assim, pouco contato, mas muito... muito amor!
Trabalhei muito, dia após dia, com o suor escorrendo pelo rosto para juntar um bom dinheiro, comprar minha casa e me casar com minha querida Luíza. Finalmente consegui! A alegria estampada em meu rosto mostrava a todos o amor que por ela sentia.
Casei-me, dia especial, totalmente sem palavras, momento sem explicação! Que nervosismo ficar em frente ao altar esperando minha 'anja protetora' chegar! Então - depois de minutos de atraso - entra minha noiva, minha esposa, minha mulher! Linda, véu sobre o rosto, cauda longa, vestido bordado à mão... imagem inesquecível.
Casal perfeito, nos amamos muito. Assim vieram os frutos... lindos frutos! Dez filhos maravilhosos, prestativos. Eu, em meu tempo de estudo, ou seja, no tempo certo para se estudar, não tive condições... não tinha mesmo! Por isso dei tudo o que não tive aos meus filhos.
Hoje tenho uma grande, não, não... ENORME família! Orgulho-me de ser descendente de italianos, mas me orgulho mais ainda de ser campo-larquense... povo bom e honesto! Agora, em meu lar, tenho rapazes formados, direitos, legítimos campo-larquenses!
Ah, antes que tudo se apague, agradeço ao Nosso Senhor, que me permitiu ter pessoas tão lindas em minha vida, ter vivido instantes inesquecíveis e claro... registrar aqui minha caminhada, antes que o futuro os apague.
Aí vai uma dica: antes que o belo se apague, viva a vida como ela é!
Abraços... de um alguém.
Cavaleiros da cana versus mecanização
Mariane Cheli de Oliveira
Colégio Estadual Dr. Duílio Beltrão, Tamboara (PR)
O lugar onde vivo é uma típica cidadezinha do interior do Paraná, com uma população de apenas 4.275 habitantes. O formato do município de Tamboara é no mínimo curioso, quase um quadrado perfeito emoldurando uma cidade em miniatura com virtudes e problemas característicos de uma cidade pequena.
Em nosso município e região a cana-de-açúcar é a principal fonte de trabalho; é cortando cana que muitos trabalhadores sustentam suas famílias. Devido ao serviço árduo e estafante, podemos chamá-los de cavaleiros da cana, pois levantam de madrugada, vestem suas armaduras e saem para a luta com a determinação de guerreiros.
Mas ultimamente algo vem lhes tirando o sono: a provável mecanização da colheita de cana. Penso que isso não deveria acontecer, pois é indiscutível que esse tipo de colheita irá ocasionar o desemprego de muitos trabalhadores braçais.
Com a implantação da mecanização, as usinas teriam mais lucros, pois, segundo dados da Alcopar, enquanto um trabalhador colhe em média seis toneladas de cana por dia, uma máquina pode colher seiscentas.
Segundo dados da União dos Produtores de Bioenergia (UDOP), o Paraná ocupa o segundo lugar na produção de cana-de-açúcar. Isso é algo que podemos perceber claramente observando o aumento do plantio de cana em nossa área rural, que, se por um lado, gera muitos empregos, por outro, causa problemas ambientais.
Nesse sentido, os que são contrários ao processo de mecanização da colheita de cana-de-açúcar argumentam que ele tiraria o emprego de muita gente, que em sua maioria possui baixa escolaridade e não conseguiria outro emprego, principalmente com carteira assinada, como o proporcionado pelo corte de cana.
Os que argumentam a favor citam as questões ambientais, pois com o trabalho das máquinas não haveria a necessidade das queimadas dos canaviais que poluem o ar, matam animais e prejudicam a saúde humana, principalmente a dos próprios cortadores de cana que entram em contato direto com a fuligem.
Na minha opinião, os impactos negativos causados pelas queimadas são inegáveis, mas não deveriam servir de justificativa para a substituição de trabalhadores por máquinas. Vale lembrar que o corte da cana sem a prática da queimada não é impossível, pois isso já ocorre quando há o corte de cana para a produção de mudas.
Segundo pesquisa feita pelo engenheiro ambiental Eleutério Languloski, não há motivos que justifiquem técnica, ecológica ou socialmente as queimadas nos canaviais, a não ser para maior rendimento da colheita.
Esse, com certeza, é um impasse difícil de ser resolvido, mas acho que a solução está com os donos de usinas, que poderiam abrir mão de suas margens de lucro, acabando com a prática da queima de cana, pagando uma remuneração mais justa aos seus trabalhadores que, produziriam menos do que na situação atual, e fornecendo-lhes equipamentos de trabalho adequados para sua proteção, visto que na colheita da cana os trabalhadores estariam mais sujeitos à picada de bichos peçonhentos e cortes causados pelas folhas.
Assim, o verde de nossos canaviais continuaria sendo a cor da esperança de nossos cavaleiros, que vêem no plantio da cana e na força de seu trabalho a garantia de sustento de suas famílias e o progresso de nossa cidade.


