Colégio de Pitanga é referência com projeto sobre a História e Cultura Afro 24/09/2009 - 16:55
O Centro Estadual de Educação Básica de Jovens e Adultos - Ceebja Casturina Campanharo Bonfim, do município de Pitanga, é considerado referência no Sul do Brasil pelos pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR). O colégio ganhou esse reconhecimento por desenvolver projeto sobre a História e Cultura Afro-Brasileira e Africana.
O colégio vem colocando em prática desde 2006 atividades e projetos referentes à implantação da Lei 10.639/03, que determina a obrigatoriedade de todas as escolas brasileiras a abordar e discutir esse tema em sala de aula e serviu de referência para o professor doutor da UFPR Paulo Vinícius Baptista dos Santos que esteve recentemente na cidade pesquisando e analisando documentos e registros a fim de coletar informações sobre como a lei vem sendo implantada no Ceebja.
No Paraná, as ações formativas e políticas afirmativas desenvolvidas pela Secretaria Estadual de Educação do Paraná refletem este compromisso e o processo de implementação desta Lei no currículo escolar desencadeou diversas discussões pertinentes à Educação das Relações Étnico-Raciais. A criação das equipes multidisciplinares é um dos exemplos de que sendo a educação parte da construção histórica e um direito de todos, cabe às esferas governamentais a garantia de uma educação de qualidade.
Historicamente a população negra no Brasil foi colocada à margem da sociedade, imprimindo relações desiguais entre as condições de direitos da população branca e da população negra.
Neste sentido, a direção da escola desenvolveu o projeto denominado “A força e o brilho da luz negra”, que tem como objetivo discutir diferentes conceitos raciais, desvelar a situação da população negra no Brasil, conhecer alguns elementos culturais, religiosos, sociais e econômicos que tiveram interferência africana, conhecer a visão do negro quanto ao sistema de cotas, entre outros, buscando alternativas políticas e sociais de superação dessas desigualdades.
O projeto envolveu todos os alunos e a comunidade escolar. O Ceebja Casturina Campanharo Bonfim possui hoje aproximadamente 700 alunos e 53 professores, funcionando em dois turnos. Para a idealizadora do projeto professora Gláucia Dziubate Canova, a intenção é sensibilizar a todos no sentido de excluir do espaço da escola as posturas racistas, discriminatórias e seletivas.
“Trabalhar as africanidades, as relações étnicas no Brasil e a identidade brasileira, não é mais uma decisão solitária de um ou outro educador, deve ser uma ação coletiva para compreendermos, que preconceito e discriminação são aprendidos e propagados pela cultura de cada grupo, logo é pelo conhecimento que podemos contar essa história de maneira diferente”, disse Gláucia.
Os alunos realizam seminários com mesa redonda, onde recebem sempre profissionais para conversar sobre o tema e discutir políticas e ações que propiciam o contato com a cultura africana e afro-brasileira e as contribuições do povo negro à cultura nacional.
“Precisamos implementar as leis que foram postas, mas não só como cumprimento legal, mas principalmente para aceitarmos o Brasil como um país mestiço, que excluiu grande parte de sua população, provocando um abismo social. Portanto a escola não pode silenciar, precisa agir para superar a naturalização do preconceito”, finalizou a coordenadora.
Segundo a diretora do colégio, professora Vacilina Kovalski da Silva, o reconhecimento por parte dos membros da UFPR só valoriza ainda mais a educação pública no estado. “Ser considerado uma referência de escola de educação de jovens e adultos quanto à implementação da lei só demonstra que o trabalho vem dando certo e sem dúvida terá continuidade, pois além de ser uma diretriz para o ensino, é necessário recontar a história de 500 anos, cheias de heróis brancos, excluindo a população negra da História do Brasil, como participantes fundamentais para a construção da identidade brasileira, promovendo, portanto, o abismo da desigualdade social”, afirmou.
Outros exemplos – E não são somente os alunos jovens e adultos que se interessam por esse assunto. Um exemplo vem do Colégio Estadual Dom Pedro I, também do município de Pitanga, onde alunos da 6ª do fundamental até alunos do ensino médio desenvolvem dentro e fora de sala de aula projetos ligados a Cultura e História Afro Brasileira.
O colégio tem aproximadamente 1200 alunos e 89 professores, funciona em três períodos no ensino fundamental médio e profissional. Dentro do projeto, alunos do ensino fundamental, mais precisamente da 6ª e 7ª série desenvolvem uma série de atividades relacionadas ao tema, todos voltados sempre para a realidade e ao ambiente escolar. “Eles transformam o processo de pesquisa em gráficos, em redações. Aprendem a interpretar os números e os textos, o que sem dúvida ajuda muito no desempenho de cada um”, disse a professora Gláucia
Temas como a política de cotas, o estatuto da Igualdade Racial são abordados e discutidos na escola. Os alunos fazem também análise dos comerciais de televisão, de revistas de circulação nacional, além de entrevistas com a própria comunidade para saber a opinião sobre preconceito, depois discutem os resultados em sala de aula.
Para a diretora Nanci Bassani, o resultado que os alunos encontram é espantoso, eles mesmo ficam chocados em ver quanta diferença existe no país. “Ao voltarem para a sala de aula depois de analisar a televisão, as revistas, os alunos voltam surpreendidos em ver quanta discriminação existe no mundo. O fato deles constatarem que não há negros em encartes de lojas, em outdoors, na publicidade em geral causou neles uma comoção e um impacto muito grande”, disse.
Percebendo a falta do negro nos materiais de divulgação, durante um dos projetos, a professora Glaucia teve à idéia de incentivar os próprios alunos a escreverem cartas e enviar ao presidente da Câmara dos Dirigentes Lojistas de Pitanga, onde eles pudessem expressar suas vontades e suas reivindicações. Foi então durante uma aula de português que surgiu a idéia. “Eu perguntei a eles o que eles escreveriam para o presidente da câmara dos dirigentes lojistas, e a resposta foi unânime, solicitar que negros façam parte do material publicitário da cidade”, contou a professora.
“As pessoas negras precisam e merecem ter o mesmo espaço do que o branco. Somos todos iguais, ninguém pode ser discriminado pelo tom da sua pele”, disse Kerolyn Jones Fagundes, aluna da 6ª série do Colégio Dom Pedro I, empolgada em escrever sua primeira carta.
Para Glaucia, os alunos por mais novos que eles sejam já conseguem perceber a enorme diferença, o grande abismo que há em nosso meio. “Eles voltaram chocados com o que observaram e vivenciaram. O preconceito muitas vezes nasce nas próprias casas, às vezes pelo simples fato de uma piada contada. Tenho certeza que depois desse trabalho eles terão uma outra visão, outra mentalidade sobre injustiça e preconceito.
As equipes multidisciplinares vieram para promover uma prática político-pedagógica de igualdade racial entre os professores, despertando a consciência política sobre o tema, ampliando as discussões e as ações pedagógicas que privilegiem igualdade entre os povos. No Paraná, desde 2006 todas as escolas da rede estadual de ensino contam com suas equipes multidisciplinares, onde professores de várias disciplinas desenvolvem projetos voltados para o ensino da História e Cultura Afro Brasileira, Africana e Indígena.
“A criação das equipes multidisciplinares faz parte da consolidação da política de educação etnicorraciais da Seed, tendo em visto o reconhecimento e o respeito cultural da população negra, quilombola e indígena no estado do Paraná. A tarefa e o desafio é pautar a respeitosa presença desses sujeitos no conjunto dos conhecimentos e relações sociais dentro do ambiente escolar”, disse Wagner Roberto do Amaral, chefe do Departamento da Diversidade.
O colégio vem colocando em prática desde 2006 atividades e projetos referentes à implantação da Lei 10.639/03, que determina a obrigatoriedade de todas as escolas brasileiras a abordar e discutir esse tema em sala de aula e serviu de referência para o professor doutor da UFPR Paulo Vinícius Baptista dos Santos que esteve recentemente na cidade pesquisando e analisando documentos e registros a fim de coletar informações sobre como a lei vem sendo implantada no Ceebja.
No Paraná, as ações formativas e políticas afirmativas desenvolvidas pela Secretaria Estadual de Educação do Paraná refletem este compromisso e o processo de implementação desta Lei no currículo escolar desencadeou diversas discussões pertinentes à Educação das Relações Étnico-Raciais. A criação das equipes multidisciplinares é um dos exemplos de que sendo a educação parte da construção histórica e um direito de todos, cabe às esferas governamentais a garantia de uma educação de qualidade.
Historicamente a população negra no Brasil foi colocada à margem da sociedade, imprimindo relações desiguais entre as condições de direitos da população branca e da população negra.
Neste sentido, a direção da escola desenvolveu o projeto denominado “A força e o brilho da luz negra”, que tem como objetivo discutir diferentes conceitos raciais, desvelar a situação da população negra no Brasil, conhecer alguns elementos culturais, religiosos, sociais e econômicos que tiveram interferência africana, conhecer a visão do negro quanto ao sistema de cotas, entre outros, buscando alternativas políticas e sociais de superação dessas desigualdades.
O projeto envolveu todos os alunos e a comunidade escolar. O Ceebja Casturina Campanharo Bonfim possui hoje aproximadamente 700 alunos e 53 professores, funcionando em dois turnos. Para a idealizadora do projeto professora Gláucia Dziubate Canova, a intenção é sensibilizar a todos no sentido de excluir do espaço da escola as posturas racistas, discriminatórias e seletivas.
“Trabalhar as africanidades, as relações étnicas no Brasil e a identidade brasileira, não é mais uma decisão solitária de um ou outro educador, deve ser uma ação coletiva para compreendermos, que preconceito e discriminação são aprendidos e propagados pela cultura de cada grupo, logo é pelo conhecimento que podemos contar essa história de maneira diferente”, disse Gláucia.
Os alunos realizam seminários com mesa redonda, onde recebem sempre profissionais para conversar sobre o tema e discutir políticas e ações que propiciam o contato com a cultura africana e afro-brasileira e as contribuições do povo negro à cultura nacional.
“Precisamos implementar as leis que foram postas, mas não só como cumprimento legal, mas principalmente para aceitarmos o Brasil como um país mestiço, que excluiu grande parte de sua população, provocando um abismo social. Portanto a escola não pode silenciar, precisa agir para superar a naturalização do preconceito”, finalizou a coordenadora.
Segundo a diretora do colégio, professora Vacilina Kovalski da Silva, o reconhecimento por parte dos membros da UFPR só valoriza ainda mais a educação pública no estado. “Ser considerado uma referência de escola de educação de jovens e adultos quanto à implementação da lei só demonstra que o trabalho vem dando certo e sem dúvida terá continuidade, pois além de ser uma diretriz para o ensino, é necessário recontar a história de 500 anos, cheias de heróis brancos, excluindo a população negra da História do Brasil, como participantes fundamentais para a construção da identidade brasileira, promovendo, portanto, o abismo da desigualdade social”, afirmou.
Outros exemplos – E não são somente os alunos jovens e adultos que se interessam por esse assunto. Um exemplo vem do Colégio Estadual Dom Pedro I, também do município de Pitanga, onde alunos da 6ª do fundamental até alunos do ensino médio desenvolvem dentro e fora de sala de aula projetos ligados a Cultura e História Afro Brasileira.
O colégio tem aproximadamente 1200 alunos e 89 professores, funciona em três períodos no ensino fundamental médio e profissional. Dentro do projeto, alunos do ensino fundamental, mais precisamente da 6ª e 7ª série desenvolvem uma série de atividades relacionadas ao tema, todos voltados sempre para a realidade e ao ambiente escolar. “Eles transformam o processo de pesquisa em gráficos, em redações. Aprendem a interpretar os números e os textos, o que sem dúvida ajuda muito no desempenho de cada um”, disse a professora Gláucia
Temas como a política de cotas, o estatuto da Igualdade Racial são abordados e discutidos na escola. Os alunos fazem também análise dos comerciais de televisão, de revistas de circulação nacional, além de entrevistas com a própria comunidade para saber a opinião sobre preconceito, depois discutem os resultados em sala de aula.
Para a diretora Nanci Bassani, o resultado que os alunos encontram é espantoso, eles mesmo ficam chocados em ver quanta diferença existe no país. “Ao voltarem para a sala de aula depois de analisar a televisão, as revistas, os alunos voltam surpreendidos em ver quanta discriminação existe no mundo. O fato deles constatarem que não há negros em encartes de lojas, em outdoors, na publicidade em geral causou neles uma comoção e um impacto muito grande”, disse.
Percebendo a falta do negro nos materiais de divulgação, durante um dos projetos, a professora Glaucia teve à idéia de incentivar os próprios alunos a escreverem cartas e enviar ao presidente da Câmara dos Dirigentes Lojistas de Pitanga, onde eles pudessem expressar suas vontades e suas reivindicações. Foi então durante uma aula de português que surgiu a idéia. “Eu perguntei a eles o que eles escreveriam para o presidente da câmara dos dirigentes lojistas, e a resposta foi unânime, solicitar que negros façam parte do material publicitário da cidade”, contou a professora.
“As pessoas negras precisam e merecem ter o mesmo espaço do que o branco. Somos todos iguais, ninguém pode ser discriminado pelo tom da sua pele”, disse Kerolyn Jones Fagundes, aluna da 6ª série do Colégio Dom Pedro I, empolgada em escrever sua primeira carta.
Para Glaucia, os alunos por mais novos que eles sejam já conseguem perceber a enorme diferença, o grande abismo que há em nosso meio. “Eles voltaram chocados com o que observaram e vivenciaram. O preconceito muitas vezes nasce nas próprias casas, às vezes pelo simples fato de uma piada contada. Tenho certeza que depois desse trabalho eles terão uma outra visão, outra mentalidade sobre injustiça e preconceito.
As equipes multidisciplinares vieram para promover uma prática político-pedagógica de igualdade racial entre os professores, despertando a consciência política sobre o tema, ampliando as discussões e as ações pedagógicas que privilegiem igualdade entre os povos. No Paraná, desde 2006 todas as escolas da rede estadual de ensino contam com suas equipes multidisciplinares, onde professores de várias disciplinas desenvolvem projetos voltados para o ensino da História e Cultura Afro Brasileira, Africana e Indígena.
“A criação das equipes multidisciplinares faz parte da consolidação da política de educação etnicorraciais da Seed, tendo em visto o reconhecimento e o respeito cultural da população negra, quilombola e indígena no estado do Paraná. A tarefa e o desafio é pautar a respeitosa presença desses sujeitos no conjunto dos conhecimentos e relações sociais dentro do ambiente escolar”, disse Wagner Roberto do Amaral, chefe do Departamento da Diversidade.


